Falta de transparência de algoritmos é peça central em apurações envolvendo redes sociais


Nesta semana, a Polícia Federal enviou um relatório ao STF (Supremo Tribunal Federal) concluindo que há indícios de que o influenciador Bruno Aiub, vulgo Monark, descumpriu decisão do tribunal.

Em agosto, o ministro Alexandre de Moraes já havia determinado um novo bloqueio de perfis de Monark nas redes e uma multa de R$ 300 mil, citando reportagem do Aos Fatos que revelou que ele e o blogueiro foragido Allan dos Santos usavam o Spotify para se evadir da Justiça.

Casos de influenciadores que deveriam ter tido as contas bloqueadas e continuaram a disseminar desinformação já ocorreram em outras plataformas. No ano passado, o algoritmo do YouTube recomendou os canais de Barbara Destefani, Rodrigo Constantino, Paulo Figueiredo e Paula Marisa — todos alvos de decisões judiciais.

Sem previsão de regulação, Spotify vira reduto de desinformadores banidos de outras redes

Em outra frente, o MPF (Ministério Público Federal) confirmou a abertura de uma investigação para apurar denúncia anônima contra o Kwai, cujo conteúdo coincide com informações publicadas em reportagem da piauí.

Segundo a revista, a empresa “clonou contas, impulsionou presidenciáveis e pagou por conteúdos desonestos em sua escalada até os 48 milhões de usuários no Brasil”.

Aos Fatos é citado em dois trechos do texto. No primeiro, a piauí menciona reportagem de julho de 2022 que mostrou que vídeos desinformativos publicados por Jair Bolsonaro (PL) acumulavam 13 milhões de visualizações na plataforma àquela altura.

Na segunda citação, o Kwai disse que “tem uma parceria com a agência de checagem de informações Aos Fatos, que ajuda na identificação de materiais passíveis de banimento”.

Procurado pela piauí, o Aos Fatos informou que a parceria “consiste em checar vídeos encaminhados pelo time de moderação da plataforma” e esclareceu que “não participamos de decisões de moderação”. “Ou seja, quem determina se uma publicação fica ou sai do ar é o Kwai.”

O escrutínio sem precedentes pelo qual passa a plataforma de vídeos curtos, principal rival do TikTok no país, ocorre no momento em que ela tomou o lugar da adversária como rede oficial do reality show de maior audiência do país, o Big Brother Brasil. Antes presente apenas na Fazenda, da Record, o Kwai chegará agora a novos públicos.

Com novas audiências, deveriam vir responsabilidades redobradas. E o Núcleo mostrou que o “Kwai está infestado de conteúdo que sexualiza menores”, conforme reportagem publicada nesta quarta-feira (24). Em 40 sessões de uso na plataforma, conteúdos do tipo apareceram em todas, algumas logo que o aplicativo era aberto.

Em resposta, a empresa disse que “não produz conteúdo e não compactua com qualquer temática que prejudique a integridade de seus usuários” e “que está em constante evolução, sempre buscando novas formas de melhorar seus mecanismos e políticas para garantir um ambiente digital cada vez mais seguro e saudável para todos os usuários”.

A investigação do MPF promete desdobramentos, e o tema continuará em pauta — o Aos Fatos trará mais notícias em breve.

Em países ocidentais, a desconfiança sobre o caminho que cada conteúdo faz é maior em relação a plataformas de origem chinesa. Durante o debate sobre um possível banimento do TikTok nos Estados Unidos, que ganhou tração sob Donald Trump, vozes relevantes expressaram receio de que a China poderia usar o poder da timeline para influenciar de forma negativa a visão de uma geração de americanos em relação ao país.

No entanto, não é necessário ir tão longe para admitir a influência óbvia que esses códigos exercem sobre as pessoas. Em uma tirinha de André Dahmer, o personagem Algoritmo enumera: “Ela curte ioga. Gosta de gatos, cerâmica, constelação familiar e comida sem glúten”. E então, conclui: “Isso quer dizer que ela vai comprar o curso de encadernação artesanal”.

Fala de Moraes sobre cassar candidatos que usarem IA é prenúncio de embate com políticos

O tema da transparência algorítmica apareceu em audiência pública promovida pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral), na terça (23), para discutir resoluções do tribunal para as eleições deste ano. O advogado Fernando Rodrigues Peres propôs que a Justiça Eleitoral seja capaz de, no mínimo, auditar o funcionamento dos algoritmos de recomendação de conteúdo.

O debate deve se intensificar nesta quinta-feira (25), quando a pauta principal será o uso de inteligência artificial para fins eleitorais — o que, em sentido amplo, inclui os conteúdos publicados pelos candidatos nas redes sociais.

Seja o objetivo final aumentar a audiência, extrair dinheiro, convencer eleitores ou promover campanhas de influência estrangeira — é o algoritmo, a caixa-preta da recomendação, que vai garantir o alcance e executar o serviço.